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As coisas de antigamente



A minha rua tinha duas árvores. Uma delas ficava no quintal do meu vizinho ruim. O vizinho era ruim, ou melhor, ainda é ruim, não a árvore. Bem, o sol sempre nascia atrás dela e de frente para a porta da minha casa e a gente nunca tinha coragem de levantar pra ver o por do sol. Por sorte, o sol se punha na parte de trás da minha casa e esse a gente sempre olhava da varanda que ainda tem no meu quarto. Bem, não no meu quarto, mas no quarto que era meu. Mas tudo bem, agora ele é ocupado por uma pessoa legal, ou pelo menos, ele parece ser legal, algumas músicas das quais escuta pelo menos são.

O fato é que agora a árvore do meu vizinho não está mais lá: o terreno nem é mais do meu vizinho ruim e a árvore foi derrubada para que o espaço no qual ela ocupava fosse agora transformado em garagem para carros. Os carros agora ocupam o lugar. E aquela árvore foi transformada em enfeite. Algumas partes dela, na verdade, porque o resto foi jogado no lixo. E também não dá mais para ver o sol nascer porque um prédio foi construído, tapando o sol.

A outra árvore ficava na frente da minha casa, mas do outro lado da rua. Quando eu era criança, a gente juntava várias outras crianças e brincávamos a noite toda naquele lugar: se fosse esconde-esconde, com certeza poderíamos achar alguém enganchado em seus galhos. Mas não era só nessas horas, a gente sempre subia lá para conversar, sonhar, brincar, sorrir, viver. Ser criança. Hoje, ela também foi retirada de lá para dar espaço a uma pousada que foi construída. E também para servir de estacionamento. Eu não sei onde suas partes foram parar. Mas suas lembranças permaneceram. 

Hoje as crianças da minha rua não têm uma árvore para se enganchar e nem mesmo uma para admirar o imenso tamanho daquela natureza em meio às construções da cidade. Hoje a minha rua é mais movimentada e até estão assaltando celulares de quem se senta na calçada. Também não tem muita gente nas calçadas, somente meu vizinho ruim e minha família também senta, as vezes. Hoje, as crianças não vão mais de porta em porta chamar as outras para brincar. Hoje, nem sei se elas brincam. Ou se só subiram em árvores "virtuais", em seus jogos vidradas. Para ser sincera, hoje eu ainda sou uma criança buscando a minha árvore para escapar. 

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