Pular para o conteúdo principal

A descoberta

Estava passando pelo shopping, rápido e com bastante pressa. Havia pouca gente ao meu redor e ao virar em outro corredor não havia mais ninguém além de mim. Estranhei, mas não me incomodei: ao contrário, gostava da minha presença e ninguém atrapalharia meu caminho. Eu tinha pressa. 

Olhei no relógio e, sem perceber, olhei-o novamente. Meus pensamentos não pareciam focar naquele momento, a ansiedade com o novo cargo na empresa me tomava por completa! Feliz? É, talvez sim. Não! Com certeza. Estufei o peito. Cabeça erguida, pensamentos nas economias e compras que poderia fazer, na pressa em chegar logo, olhava para as vitrines sem notar roupas, calçados, joias ou mesmo os espelhos imensos que tornavam a decoração um tanto estranha. E por que eu demorava tanto a chegar ao elevador? Bem, fosse por isso que ninguém ia por ali.

Dei de ombros. Nada atrapalharia meu dia. Nem mesmo uma velha senhora que se arrastava e fazia um barulho ensurdecedor ao arrastar pelo chão algo de metal. Estava em maltrapilhos. Provavelmente o segurança do shopping não a vira entrar, se não... Diante daquilo, achei que eu deveria falar com o gerente do lugar. Onde já se viu? Pagamos caro para ter exclusividade: garagem, carro bom, roupas boas, imagem boa... qualidades apreciadas para a civilização. Ninguém tinha a obrigação de ver tamanha miséria. Afinal, a gente vai ao shopping para esquecer a rua lá fora, para nos embelezarmos com a modernidade...

Olhei no relógio. Não prestei atenção. Olhei no relógio. Droga! Estava prestes a chegar atrasada. Aquela velha me tirou os pensamentos! Olhei no relógio. Pensando bem, talvez desse tempo de falar com o gerente. Era, iria fazer isso. Continuaria pelo corredor, dobraria à direita e seguiria para a sala especial do gerente daquele shopping. Algo deveria ser feito. 

A velha se aproximava do lado esquerdo e virei o rosto para a vitrine a minha direita. Repentinamente, algo me deu um susto, mas logo tratei de me acalmar. Era somente uma mulher que vinha à minha direita, quase frente a frente comigo. Admirei-a: estava muito bem vestida, usava sapatos e bolsa finos, de fato uma empresária. Esse é o estilo desse shopping, pensei, cabeça erguida.

Mas, a medida que nos aproximávamos, eu achava algo meio estranho. A mulher tinha o rosto tomado em fúria, andava a passos largos, olhava constantemente no relógio e, de esguelha, lançava olhares furiosos para mim. Respondi-lhe com olhares de esguelha também. De repente, aquele olhar furioso me lembrou minha mãe, uma senhora já, ainda morando no sítio e apegada aos trapilhos que vestia. Como se uma montanha desabasse, se é que isso seria possível, tomei-me de saudade e angústia e ainda mais quando olhei para trás e percebi que aquela senhora me lembrava muito ela. Balancei a cabeça e voltei-me para frente. Não havia tempo a perder, eu tinha negócios valiosos a tratar.

Então a mulher a minha direita continuava a se aproximar, o olhar raivoso como o de um cachorro que late. Por um instante, tive pena. O que aconteceu para que ela estivesse assim? E, ainda mais, por que continuava olhando pelo canto do olho para mim? Eu estava perfeitamente dentro do belo para estar naquele shopping que, diga-se de passagem, se pessoas como aquela velha continuassem por ali, iria se tornar um mero popular. 

A mulher estava mais perto de agora e continuava com o mesmo olhar. Nenhum bom dia, nenhum comentário; olhou no relógio. Me assustei quando passamos uma ao lado da outra. Nos encaramos com olhares sérios e ela mais raivosa do que antes. Quando a mulher já estava às minhas costas, foi como se um peso saísse de mim. Infeliz. Isso a mulher com certeza era. Sorri para mim mesma e balancei a cabeça. Mas o peso desceu sobre mim de vez com o que vi quando virei meu rosto para trás: a mulher não estava mais ali. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia mais: Saudade para quê?, Serginho Groisman

Existem jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70, da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista – comunista – anarquista – marxista – leninista. Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura, o medo, falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é a vez dos playboys – patricinhas – cybermanos – junkies, das raves, do crack, da segurança dos shoppings e do Beira-Mar. Um cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita gente que tem uma visão romântica de outras décadas. Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é a real de uma juventude e de uma soci…

As coisas de antigamente

A minha rua tinha duas árvores. Uma delas ficava no quintal do meu vizinho ruim. O vizinho era ruim, ou melhor, ainda é ruim, não a árvore. Bem, o sol sempre nascia atrás dela e de frente para a porta da minha casa e a gente nunca tinha coragem de levantar pra ver o por do sol. Por sorte, o sol se punha na parte de trás da minha casa e esse a gente sempre olhava da varanda que ainda tem no meu quarto. Bem, não no meu quarto, mas no quarto que era meu. Mas tudo bem, agora ele é ocupado por uma pessoa legal, ou pelo menos, ele parece ser legal, algumas músicas das quais escuta pelo menos são.
O fato é que agora a árvore do meu vizinho não está mais lá: o terreno nem é mais do meu vizinho ruim e a árvore foi derrubada para que o espaço no qual ela ocupava fosse agora transformado em garagem para carros. Os carros agora ocupam o lugar. E aquela árvore foi transformada em enfeite. Algumas partes dela, na verdade, porque o resto foi jogado no lixo. E também não dá mais para ver o sol nasce…