31 de maio de 2016

Hoje não choveu em nós



Ontem teve chuva no meu Sertão.

Todo mundo corria para fechar as janelas e não deixar água entrar, mas, como se fazia antes, a gente ficava naquela brechinha, ouvindo o som da água descendo, nobremente, para banhar o chão do meu Sertão. Aquele cheirinho de chuva, aquela paz, aquele céu nublado... era indescritível. Era como se a gente sentisse a mata viver novamente, pois rapidamente ficava verde outra vez e expulsava aquele cinza triste. E a gente vivia novamente, junto com as plantas e os animais. E todo mundo corria para ver a chuva descer, para comentar com os outros "Está chovendo, graças a Deus!" porque todo mundo ainda acreditava em Deus e agradecia pela chuva.

Então as mulheres iam aproveitar a água para lavar a calçada ou o terraço, as crianças ainda saíam para tomar banho de chuva, debaixo das goteiras, pulando nas poças d'água, com a mãe reclamando "Só depois da segunda chuva!" porque a primeira fazia a limpeza. Todo mundo desligava o som das lojas e dos carros para ouvir aquele som e a gente ficava em paz. Quando a chuva fazia a energia cair, aí é que era bom! Porque ficava todo mundo junto, olhando para o céu, conversando ou fazendo algo tranquilo, longe de internet, da TV ou de qualquer outra coisa do tipo. Quando era chuva no meu Sertão, todo mundo se unia como uma só família.

Hoje teve chuva no meu Sertão, mas poucos agradeceram. Foram fechar as janelas, mas fecharam todas, nem deixaram aquela brechinha. O barulho da cidade era maior do que o som da chuva. As mulheres ainda aproveitaram a água, mas poucas delas e as crianças não saíram mais de casa porque a energia não caiu e o medo de adoecer era grande demais. Será? Só sei que hoje teve chuva no meu Sertão, mas ninguém aproveitou, valorizou, sentiu como ontem. Ontem teve isso, hoje foi só a chuva mesmo. E, mesmo que o verde tenha voltado, parece que o cinza ainda permaneceu com a gente. 

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