Pular para o conteúdo principal

Porque a hora da raiva é agora



Eu moro entre quatro sons. O som da esquerda é brega, o da direita é forró, o de trás é TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! e o outro, pouco afastado, é sertanejo. E estudo para tentar entrar para um curso de medicina. Estou entre os cálculos matemáticos - que eu com certeza abomino -, ou entre as fórmulas estranhas de física, lendo um bom texto de português ou entendendo o corpo humano (biologia, matéria preferida). E, de repente...

"Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva..."

Começo a curtir o som do vizinho. Presto atenção no som e até na letra, acho bonita, normal talvez. Mas tudo bem, não faz mal aos ouvidos. Quando Newton fala em ação e reação, volta de novo. "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...". E eu presto atenção, desvio meus pensamentos um pouco e volto para a matéria, tento me concentrar. Consigo! Não, consigo! 

TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! É domingo e o pessoal da oficina (atrás) ainda está trabalhando! Acordo às seis, eles acordam às cinco. Deito ao meio-dia, eles trabalham ao meio-dia. Será que eles são aqueles tão famosos concorrentes de que falam aquelas frases de inspiração aos vestibulandos "Seu concorrente não está brincando, não está vagabundando, não está dormindo!"? É, presumo que sim. Concorremos pelo silêncio. No meu caso, sempre perco. Até nos domingos.

Na segunda-feira, novamente. "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...". Começo a me estressar. Meu concorrente não está escutando sertanejo, então também não posso estar. O que fazer? Fecho todas as portas e janelas e ligo o ventilador. Ainda consigo escutar "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...", mas dessa vez num volume mais adequado e, mesmo assim ainda incomoda. O que antes eu via como algo legal, agora não me ajuda. E o pior: eu moro no sertão da Paraíba! Quando fecho tudo e ligo o ventilador, parece que esse trouxe o calor do mundo inteiro para um só quarto. O sol ainda bate na minha parede e fico sem ar. Quase que literalmente sem ar, porque fica muito abafado e o suor escorre bastante. O que fazer? Mudar de lugar.

Mudo de lugar, mas "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva..." ainda continua forte. Meu Deus, o que eu faço? E quando junta o brega, o forró, o sertanejo e o TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN!, tudo de uma só vez? O jeito é se adaptar. 

Mesmo assim, não consigo deixar de dizer: A HORA DA RAIVA É AGORA. E, se eu for continuar ouvindo a música mesmo, ao invés de estudar, vou concordar com o restante da letra:

"Naquele segundo /Eu pensei que até te odiava/ Mas respirei fundo (...)"

E, ao respirar fundo, percebi o que?
Que a raiva ainda estava ali. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia mais: Saudade para quê?, Serginho Groisman

Existem jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70, da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista – comunista – anarquista – marxista – leninista. Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura, o medo, falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é a vez dos playboys – patricinhas – cybermanos – junkies, das raves, do crack, da segurança dos shoppings e do Beira-Mar. Um cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita gente que tem uma visão romântica de outras décadas. Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é a real de uma juventude e de uma soci…

A descoberta

Estava passando pelo shopping, rápido e com bastante pressa. Havia pouca gente ao meu redor e ao virar em outro corredor não havia mais ninguém além de mim. Estranhei, mas não me incomodei: ao contrário, gostava da minha presença e ninguém atrapalharia meu caminho. Eu tinha pressa. 
Olhei no relógio e, sem perceber, olhei-o novamente. Meus pensamentos não pareciam focar naquele momento, a ansiedade com o novo cargo na empresa me tomava por completa! Feliz? É, talvez sim. Não! Com certeza. Estufei o peito. Cabeça erguida, pensamentos nas economias e compras que poderia fazer, na pressa em chegar logo, olhava para as vitrines sem notar roupas, calçados, joias ou mesmo os espelhos imensos que tornavam a decoração um tanto estranha. E por que eu demorava tanto a chegar ao elevador? Bem, fosse por isso que ninguém ia por ali.
Dei de ombros. Nada atrapalharia meu dia. Nem mesmo uma velha senhora que se arrastava e fazia um barulho ensurdecedor ao arrastar pelo chão algo de metal. Estava em…

As coisas de antigamente

A minha rua tinha duas árvores. Uma delas ficava no quintal do meu vizinho ruim. O vizinho era ruim, ou melhor, ainda é ruim, não a árvore. Bem, o sol sempre nascia atrás dela e de frente para a porta da minha casa e a gente nunca tinha coragem de levantar pra ver o por do sol. Por sorte, o sol se punha na parte de trás da minha casa e esse a gente sempre olhava da varanda que ainda tem no meu quarto. Bem, não no meu quarto, mas no quarto que era meu. Mas tudo bem, agora ele é ocupado por uma pessoa legal, ou pelo menos, ele parece ser legal, algumas músicas das quais escuta pelo menos são.
O fato é que agora a árvore do meu vizinho não está mais lá: o terreno nem é mais do meu vizinho ruim e a árvore foi derrubada para que o espaço no qual ela ocupava fosse agora transformado em garagem para carros. Os carros agora ocupam o lugar. E aquela árvore foi transformada em enfeite. Algumas partes dela, na verdade, porque o resto foi jogado no lixo. E também não dá mais para ver o sol nasce…