11 de março de 2016

Leia mais: A vontade do falecido, Stanislaw Ponte Preta

Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim. Tinha lá um dinheirinho que guardava embaixo do colchão. Não gostava de bancos, nem comprava um terreno, porque seu sobrinho Altamirando se instalaria nele sem a menor cerimônia. Assim, a erva dele era verdinha.
Só que andava com aquele jeito cadavérico que a vizinhança achou que já ia morrer. Até o apelidaram de "Pé-na-Cova".

A família na ânsia de herdar o dinheiro dele. Mas ninguém comentava. Só Altamirando, mais mau-caráter que o resto da família, depois de uma tosse do tio, lhe perguntou:

- Titio, quando o senhor se for, pra quem vai ficar seu dinheiro?

O velho mudou de cor, de raiva, e respondeu:

- Na hora você vai saber, seu cretino!

Só que, dia depois, ele morreu.

- Bota titio na sala de visita - aconselhou Altamirando. - Botaram ele na sala.

Chegaram parentes de longe, todos interessados no dinheiro do morto.

Antes do enterro, contaram o dinheiro, sessenta milhões de cruzeiros intactos.

- O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava - disse bem alto o sobrinho. E acrescentou: - Vai ver que gastou com mulher.

Se gastou ou não, ninguém soube. O que soube é de uma carta que o falecido deixou, registrada em cartório e tudo. Nela ele dizia que quando morresse o dinheiro seria enterrado com ele. Não deixaria o que ganhou com o suor do rosto a parente vagabundo nenhum.

A parentada chorou. Mas ninguém ousou desfazer a vontade do falecido. Na hora de colocar o dinheiro no caixão, então, a choradeira aumentou.

Só que, antes de fechar o caixão, Altamirando gritou:

- Pera aí!

Tirou os sessenta milhões de dentro. Fez um cheque do mesmo valor e o colocou no caixão.

- Se titio precisar mais tarde do dinheiro, desconta no banco - disse Altamirando.

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