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Mostrando postagens de Março, 2016

O homem; as viagens, Carlos Drummond de Andrade

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso tour…

Leia mais: A vontade do falecido, Stanislaw Ponte Preta

Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim. Tinha lá um dinheirinho que guardava embaixo do colchão. Não gostava de bancos, nem comprava um terreno, porque seu sobrinho Altamirando se instalaria nele sem a menor cerimônia. Assim, a erva dele era verdinha. Só que andava com aquele jeito cadavérico que a vizinhança achou que já ia morrer. Até o apelidaram de "Pé-na-Cova".
A família na ânsia de herdar o dinheiro dele. Mas ninguém comentava. Só Altamirando, mais mau-caráter que o resto da família, depois de uma tosse do tio, lhe perguntou:
- Titio, quando o senhor se for, pra quem vai ficar seu dinheiro?
O velho mudou de cor, de raiva, e respondeu:
- Na hora você vai saber, seu cretino!
Só que, dia depois, ele morreu.
- Bota titio na sala de visita - aconselhou Altamirando. - Botaram ele na sala.
Chegaram parentes de longe, todos interessados no dinheiro do morto.
Antes do enterro, contaram o dinheiro, sessenta milhões de cruzeiros intactos.
- O velho tinha menos di…

Porque a hora da raiva é agora

Eu moro entre quatro sons. O som da esquerda é brega, o da direita é forró, o de trás é TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! e o outro, pouco afastado, é sertanejo. E estudo para tentar entrar para um curso de medicina. Estou entre os cálculos matemáticos - que eu com certeza abomino -, ou entre as fórmulas estranhas de física, lendo um bom texto de português ou entendendo o corpo humano (biologia, matéria preferida). E, de repente...
"Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva..."
Começo a curtir o som do vizinho. Presto atenção no som e até na letra, acho bonita, normal talvez. Mas tudo bem, não faz mal aos ouvidos. Quando Newton fala em ação e reação, volta de novo. "Mas foi na hora da raiva, na hora da raiva, na hora da raiva...". E eu presto atenção, desvio meus pensamentos um pouco e volto para a matéria, tento me concentrar. Consigo! Não, consigo!
TRAAA-ZUUUMMM-RIIIIIIIIN! É domingo e o pessoal da oficina (atrás) ainda está trabalhando! Acordo às seis…

Leia mais: Saudade para quê?, Serginho Groisman

Existem jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70, da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista – comunista – anarquista – marxista – leninista. Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura, o medo, falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é a vez dos playboys – patricinhas – cybermanos – junkies, das raves, do crack, da segurança dos shoppings e do Beira-Mar. Um cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita gente que tem uma visão romântica de outras décadas. Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é a real de uma juventude e de uma soci…

Leia mais: O Homem Nu, Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus de…

Estilo de vida americano

A segunda-feira já começa cedo e boa parte da população brasileira que reside em favelas acorda antes do nascer do sol. A dona de casa tipicamente morena e cansada acorda os filhos e coloca todos para o café da manhã. Nesse momento, na TV já passa um sonho: um banquete num filme americano recheado de tudo o que se tem direito e ninguém come quase nada! Ops! Mas em casa não é do mesmo jeito? Naquela família, acordada às 5 horas da manhã, ninguém toda em nada também! Estilo de vida americano ou "american way of life" como diziam numa época antiga que ninguém sabe dizer.
"Mãe! Faltou comida para o Zé!" E cadê a mãe? Já saiu correndo por entre os barracões empilhados e as ruelas de tráfico, pedindo permissão aos "donos da comunidade" para que possa, finalmente, chegar ao trabalho, sabe Deus como!
Coitada! Nem sabe que por essas horas o Zé já está na rua, assaltando gringo para ter o que comer. Lugar de menino é na escola! Onde o Governo dá bolsa e o lanche -…

Eu, Imposto

Sou famoso. Não preciso que o sol comece a brilhar para que o meu brilho apareça. Sou o único que consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo, contemplando a triste expressão do povo brasileiro e sua rotina tediosa – salvo às vezes em que acontece uma adrenalina ou outra, uma confusão daqui, um barraco dali... Isso as vezes me diverte, me dá pena, me deixa até triste! Mas então lembro que não me importo e continuo a vagar por aí, sem rumo certo.
Tem dias em que sou mais valorizado, que rendo mais, de igual para igual com o comércio, principalmente em época festiva. Todo mundo gosta de me produzir e quanto mais compram, mais eu rendo, principalmente em época de natal. É todo mundo procurando jantar e presente e me doam como presente. Gostam muito disso, na verdade. É por isso que sou famoso. Muita gente me produz, mas sou mandado por poucos, por luxuosos, vestidos de terno, é claro. Não mereço algo menos do que isso. Eles são quem me dão um rumo certo na vida, e sou muito grato!
Já…