Pular para o conteúdo principal

Eu fui abortado: só porque não tive voz



Fui abortado. Não tive tempo de criar sonhos, de me olhar no espelho e ver uma carinha amassada. Não tive tempo de ser paparicado, beijado, amado. Não tive tempo de adoecer, de chorar ou de dar trabalho também, porque eu daria, sei que daria. Talvez eu me tornasse uma criança simpática, mas não tive tempo para saber. Gostaria de conhecer as pessoas, os animais, o mundo ao meu redor.
Também não tive tempo de ter desilusões amorosas, de viajar, de brincar e de sorrir. 

Não tive tempo porque eu ainda era uma simples célula ou uma reunião delas. Era tão pouco ainda, tão pequeno e frágil que alguém achou que eu não valeria nada, que não tinha vida ali. Mas tinha e era eu, que poderia formar meus tecidos, meus órgãos e meu corpinho inteiro futuramente. Que poderia ter me tornado um grande ser humano, com humildade e compaixão. 

Não sei o motivo de ter sido abortado, ninguém me avisou nem me perguntou se eu gostaria disso. Não sei por que minha mãe não me quis, ou talvez tenha sido meu pai. Talvez ela tenha sofrido, sido violentada ou simplesmente não fosse aquela hora a certa para ela. Mas que culpa eu tive? Eu já estava ali, achando estar seguro dentro do corpo dela, almejando carinho e amor. Que culpa eu tive? Eu ainda não tinha sonhos, ainda não tinha dores, doenças, ainda não brincava. Mas eu já era uma vida. E isso já não é o suficiente? Eu não tinha direito de viver? Mesmo que fosse em um centro de adoção e com uma família sem meu sangue, eu não tinha esse direito? 

Eu também não tinha voz e por isso acharam que não tinha problema. Já que eu não reclamaria, não gritaria nem me manifestaria ou nem teria alguém para sentir minha falta, para lutar pela minha perda, para me procurar e me achar. Eu ainda não tinha voz e por isso fui abortado. 

Já não existo mais, assim como tantos outros que não existem mais também. Em que lugar estamos? Para onde fomos parar? Quantos mais não terão voz? 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia mais: Saudade para quê?, Serginho Groisman

Existem jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70, da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista – comunista – anarquista – marxista – leninista. Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura, o medo, falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é a vez dos playboys – patricinhas – cybermanos – junkies, das raves, do crack, da segurança dos shoppings e do Beira-Mar. Um cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita gente que tem uma visão romântica de outras décadas. Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é a real de uma juventude e de uma soci…

As coisas de antigamente

A minha rua tinha duas árvores. Uma delas ficava no quintal do meu vizinho ruim. O vizinho era ruim, ou melhor, ainda é ruim, não a árvore. Bem, o sol sempre nascia atrás dela e de frente para a porta da minha casa e a gente nunca tinha coragem de levantar pra ver o por do sol. Por sorte, o sol se punha na parte de trás da minha casa e esse a gente sempre olhava da varanda que ainda tem no meu quarto. Bem, não no meu quarto, mas no quarto que era meu. Mas tudo bem, agora ele é ocupado por uma pessoa legal, ou pelo menos, ele parece ser legal, algumas músicas das quais escuta pelo menos são.
O fato é que agora a árvore do meu vizinho não está mais lá: o terreno nem é mais do meu vizinho ruim e a árvore foi derrubada para que o espaço no qual ela ocupava fosse agora transformado em garagem para carros. Os carros agora ocupam o lugar. E aquela árvore foi transformada em enfeite. Algumas partes dela, na verdade, porque o resto foi jogado no lixo. E também não dá mais para ver o sol nasce…

A descoberta

Estava passando pelo shopping, rápido e com bastante pressa. Havia pouca gente ao meu redor e ao virar em outro corredor não havia mais ninguém além de mim. Estranhei, mas não me incomodei: ao contrário, gostava da minha presença e ninguém atrapalharia meu caminho. Eu tinha pressa. 
Olhei no relógio e, sem perceber, olhei-o novamente. Meus pensamentos não pareciam focar naquele momento, a ansiedade com o novo cargo na empresa me tomava por completa! Feliz? É, talvez sim. Não! Com certeza. Estufei o peito. Cabeça erguida, pensamentos nas economias e compras que poderia fazer, na pressa em chegar logo, olhava para as vitrines sem notar roupas, calçados, joias ou mesmo os espelhos imensos que tornavam a decoração um tanto estranha. E por que eu demorava tanto a chegar ao elevador? Bem, fosse por isso que ninguém ia por ali.
Dei de ombros. Nada atrapalharia meu dia. Nem mesmo uma velha senhora que se arrastava e fazia um barulho ensurdecedor ao arrastar pelo chão algo de metal. Estava em…