12 de novembro de 2015

Eu fui abortado: só porque não tive voz



Fui abortado. Não tive tempo de criar sonhos, de me olhar no espelho e ver uma carinha amassada. Não tive tempo de ser paparicado, beijado, amado. Não tive tempo de adoecer, de chorar ou de dar trabalho também, porque eu daria, sei que daria. Talvez eu me tornasse uma criança simpática, mas não tive tempo para saber. Gostaria de conhecer as pessoas, os animais, o mundo ao meu redor.
Também não tive tempo de ter desilusões amorosas, de viajar, de brincar e de sorrir. 

Não tive tempo porque eu ainda era uma simples célula ou uma reunião delas. Era tão pouco ainda, tão pequeno e frágil que alguém achou que eu não valeria nada, que não tinha vida ali. Mas tinha e era eu, que poderia formar meus tecidos, meus órgãos e meu corpinho inteiro futuramente. Que poderia ter me tornado um grande ser humano, com humildade e compaixão. 

Não sei o motivo de ter sido abortado, ninguém me avisou nem me perguntou se eu gostaria disso. Não sei por que minha mãe não me quis, ou talvez tenha sido meu pai. Talvez ela tenha sofrido, sido violentada ou simplesmente não fosse aquela hora a certa para ela. Mas que culpa eu tive? Eu já estava ali, achando estar seguro dentro do corpo dela, almejando carinho e amor. Que culpa eu tive? Eu ainda não tinha sonhos, ainda não tinha dores, doenças, ainda não brincava. Mas eu já era uma vida. E isso já não é o suficiente? Eu não tinha direito de viver? Mesmo que fosse em um centro de adoção e com uma família sem meu sangue, eu não tinha esse direito? 

Eu também não tinha voz e por isso acharam que não tinha problema. Já que eu não reclamaria, não gritaria nem me manifestaria ou nem teria alguém para sentir minha falta, para lutar pela minha perda, para me procurar e me achar. Eu ainda não tinha voz e por isso fui abortado. 

Já não existo mais, assim como tantos outros que não existem mais também. Em que lugar estamos? Para onde fomos parar? Quantos mais não terão voz? 

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