21 de setembro de 2014

Crônica sobre a ditadura


Fecho os olhos para 2014 e paro um instante. É o ano de 1964, dia 30 de março. Ouço por todos os lados que Jango é a favor do comunismo no Brasil, não há escapatória: quem me dirá o contrário? Passo a acreditar no que dizem. Agora é dia 01 de abril de 64. Graças a Deus a ameaça comunista se foi. Os militares estão no poder e irão colocar a ordem nesse Brasil bagunçado. Ufa! Estou aliviado! A propaganda sobre o novo governo de Castelo Branco é forte, bonita. Sorrio ao contemplá-la. Vão passando os anos e ouço que a economia vai bem, políticos corruptos são caçados e presos e as condições de vida da população é a melhor de toda a história. Fico satisfeito. Amo o Brasil! Viva ao país!
Médici entra no poder depois de Costa e Silva. Tudo continua perfeito. Ando pela rua e de repente me deparo com um susto: um confronto entre os jovens e a polícia. Ouço gritos, vejo correrias, cartazes e pichações por todos os lados. A polícia consegue agarrar um jovem e bate em sua cabeça, arrastando-o em seguida para o carro militar, onde o joga com força. Saem depois.Mais uma multidão de pessoas correm atrás de mim, em minha direção. Nos esbarramos e fico desnorteado. Qual o motivo disso tudo?
A polícia agora está atrás de mim também. Começo a correr junto com os outros sem saber por quê. Entramos numa esquina e nos separamos. Há uma garota ao meu lado e pergunto-lhe o que aconteceu. Ela me diz para abrir os olhos e impaciente, repito minha pergunta. Responde ela “Estamos vivendo uma ditadura! A censura! Você não vê?”.
Nos afastamos e paro de correr. Não faz sentido. É ilógico! Passo a ficar fissurado pelo que vi. Começo a procurar em todos os lugares provas do que ela disse, mas tudo parece ser escondido demais, de repente até perfeito demais. Até que fico sabendo de uma reunião dos estudantes que protestavam. Indo lá, começo a ouvir narrativas sobre a suposta “ditadura”. Fico extasiado, quase vomito. A vontade que me dá é de chorar, porém nenhuma lágrima desce. Agora faço parte dos protestos e critico o governo. Não há ordem, nem muito menos progresso no país. A ânsia de que a ditadura vai acabar preenche o meu peito.
Até que sou levado para a prisão e vivo o jamais imaginável. Sou torturado com o pau-de-arara e choques elétricos para que eu abra o jogo e entregue os manifestantes. Tenho nojo do governo, nojo do país, nojo de mim mesmo por ter acreditado em tantas mentiras. Na cela, mal conseguindo respirar, ouço outra pessoa ser torturada e acabo sabendo depois que tivera seus testículos esmagados.
Depois de algum tempo, quase ficando louco, alguém consegue me tirar de lá e sou exilado do país. O que antes parecia impensável, agora se torna um alívio.
Abro os olhos e estou de volta a 2014. O índice negativo que o governo militar deixou na economia, a tristeza dos parentes de vítimas que desapareceram, marcas ocultas do que aconteceu nos vinte e um anos de ditadura, como as tantas mortes de índios (que muita gente desconhece), ainda continua vivo. Só o que não continua vivo são os jovens que davam suas vidas pela liberdade dos outros e hoje não dão uma hora do seu dia para pensar no país ou nas eleições. Fico pensando se houvesse uma nova ditadura, o que aconteceria. Porque certamente a censura ainda existe, mesmo que em menor grau. E aí? Quem revolucionaria?
Essa é a geração que só herdou o “deixa como está para ver como é que fica”. Não se importam com a democracia desde que sua internet não seja cortada. Dormente, o Brasil que pareceu despertar, na verdade nunca deu nem um suspiro. 

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